bola de futebol
(Peter Glaser/Unsplash)

SÃO PAULO – Desconhecidos há pouco tempo e hoje com quatro clubes brasileiros a bordo (Atlético Mineiro, Corinthians, Flamengo e São Paulo), os fan tokens surgem no futebol como uma forma de engajar torcedores em torno do time do coração mesmo quando os jogadores não estão em campo – e, ao mesmo tempo, gerando uma nova fonte de faturamento.

A novidade surgiu em 2019, mas caiu como uma luva na realidade pandêmica do esporte, que acaba de voltar a ter público nos estádios, após cerca de um ano e meio de arquibancadas vazias.

Foi há pouco tempo que essa categoria de criptoativos ganhou o noticiário mundial. Em agosto, rumores de que o argentino Lionel Messi assinaria com o Paris Saint Germain fizeram o token do time francês dobrar de preço – de US$ 29, o $PSG saltou para US$ 58 em dois dias. Mais tarde, o negócio foi efetivado e o jogador até topou receber “uma grande quantidade” de tokens como parte do pagamento referente ao seu bônus de contratação, na primeira negociação do tipo na história.

O movimento evidenciou algo que já vinha sendo percebido por especialistas desde a temporada passada do futebol europeu: o desempenho dentro de campo e as notícias sobre os times impactam diretamente no preço dos seus ativos digitais disponíveis no mercado.

“Tecnicamente não deveria. Mas, como a maioria dos criptoativos tem o que se chama de economia dos tokens, que define quanto vai ter de oferta [do ativo], você sabe que vai ter uma oferta conhecida com uma demanda desconhecida. É basicamente um mecanismo de oferta e demanda”, explica Bruno Milanello, executivo de novos negócios da 2TM, controladora do Mercado Bitcoin.

No auge do frenesi pela transferência de Messi para o PSG, a corretora chegou a registrar mais procura pelo token do time da capital francesa do que por Bitcoin na sua plataforma de negociação.

“Quando um clube passa a ter mais exposição na mídia, acaba atraindo mais atenção. Aí as pessoas começam a procurar mais e, com a oferta limitada, acaba pressionando o preço. Tem relação direta não por desenho do produto, mas mais por dinâmica de mercado e finanças comportamentais”, avalia Milanello.

No entanto, a investida dos clubes nos fan tokens vai além do faturamento no curto prazo, e aposta na extensão do ciclo de consumo da marca por meio do virtual, estreitando o laço do torcedor e do fã de esporte no geral – mesmo o estrangeiro que nunca ouviu falar no time antes de encontrar o token pela Internet.

Mas, afinal, o que são os fan tokens?

Fan tokens são ativos digitais emitidos na blockchain e que são enquadrados como tokens utilitários. Eles não funcionam como moeda ou como valor mobiliário, mas têm uma função específica dentro de um ecossistema onde são aceitos.

Isso quer dizer que não é possível usar fan tokens como pagamento, mas as pessoas que os detêm podem usá-los para acessar certos serviços que variam conforme a marca que representam e a plataforma onde funcionam.

No caso dos times de futebol, os fan tokens dão ao detentor o acesso a vantagens diferentes daquelas oferecidas ao sócio torcedor e, em geral, estão ligadas ao meio virtual: participação em lives e votação em enquetes para escolher músicas e frases escritas no vestiário estão no cardápio pensado pelos setores de marketing para engajar torcedores.

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Ações do tipo já existiam, mas a combinação com ativos digitais abriu o caminho para uma nova economia que movimenta milhões mesmo quando os times estão fora de campo. Após surgimento tímido em 2019, os fan tokens viraram nova fonte de renda para clubes e investidores e somam mais de US$ 340 milhões em valor de mercado.

A maioria desses ativos é criada por um grupo francês que inaugurou a categoria e tem duas empresas: a Socios.com, uma espécie de rede social onde os detentores dos tokens interagem com os clubes; e a Chiliz, uma fintech que emite os ativos digitais em uma blockchain própria.

A Juventus, da Itália, foi a primeira equipe a ter um fan token, em 2019, seguida de cinco outros clubes logo na sequência, entre eles os gigantes Barcelona e Paris-Saint Germain. No Brasil, o primeiro clube a aderir à novidade foi o Atlético Mineiro.

A equipe, no entanto, testou as águas em outro mercado de criptoativos antes de estrear o token $GALO em agosto de 2021: os tokens não-fungíveis (NFT). O Atlético lançou no primeiro semestre uma arte digital em formato NFT que recria um lance histórico do goleiro Victor, colocada à leilão na plataforma OpenSea.

Apesar da complexidade do site que dificultou o acesso por usuários iniciantes, o experimento agradou e o clube embarcou em mais uma tentativa, dessa vez em parceria com a Sorare. Logo o Atlético ganharia sua própria coleção de cards de jogadores do time principal, disponibilizados para amantes de fantasy games.

A essa altura, a adesão aos fan tokens já era esperada, e foi enfim anunciada em junho. Desde então, o ativo $GALO já serviu de ponte para votações sobre o design da braçadeira de capitão e da música que embala o time no aquecimento antes dos jogos, por exemplo. Mas, os planos vão além.

“Os fan tokens têm um potencial muito grande no médio e longo prazo. A gente quer construir com a Socios uma plataforma de engajamento não só para os nossos torcedores, mas para torcedores de outros clubes, fãs de futebol em geral que queiram interagir com o Atlético”, explica Felipe Ribbe, gerente de inovação do Atlético Mineiro.

Faturamento

Até agora, mais de meio milhão de euros já foram vendidos apenas em cards do Atlético Mineiro na Sorare. Desses, só uma “pequena parcela” é revertida ao clube, mas a avaliação é de que o negócio vale a pena.

“É um acordo de licenciamento de marca e com pouco dispêndio de trabalho. Era uma receita que não existia, e que agora está entrando”, justifica o gerente de inovação do Atlético Mineiro. O clube também levou a leilão camisetas em NFT no marketplace da Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo.

O faturamento pode não ser o único objetivo, mas é o principal elemento de atração dos times para esse novo segmento. Foi assim com o Atlético, cujo departamento de inovação é orientado a gerar receita, e teria sido assim com o Flamengo.

Segundo o portal UOL, o time carioca teria concretizado a contratação do zagueiro David Luiz graças ao recebimento inicial de R$ 16 milhões pela assinatura do contrato com a Socios.com – isso sem contar a previsão de faturamento até 2025, quando finaliza o acordo.

O clube também fica com uma fatia da pré-venda dos tokens a preço fechado antes da liberação no mercado secundário.

“A metade da oferta inicial vai para o clube, que passa a ter uma receita nova. Fica bem evidente o interesse dos clubes em lançar. Acaba sendo uma decisão bem óbvia”, conta Milanello. Ele revela que os clubes têm poucas dúvidas quanto à viabilidade jurídica do negócio, pois é algo já pacificado entre especialistas do setor – fan tokens não são considerados valor mobiliário pela legislação brasileira.

A Oferta Inicial de Fan Token (FTO, na sigla em inglês) do token $GALO vendeu 850 mil unidades ao preço de US$ 2 cada, totalizando US$ 1,7 milhões – metade ficou com o clube. O mesmo aconteceu em setembro, na venda inicial do token $SCCP, do Corinthians, e pode se repetir nas ofertas do $MENGO, do Flamengo, e do token do São Paulo, ainda sem nome divulgado.

Os preços, no entanto, ficam livres quando chegam ao mercado secundário, e aí começa uma disputa entre quem comprou e quer embolsar o lucro, e o investidor que visa o longo prazo e quer aproveitar enquanto o token está barato. Na listagem do $GALO, por exemplo, o preço saltou rapidamente 127% pela alta procura.

“Tem bastante torcedor que compra os tokens do próprio time, mas tem o fã do esporte. Eu mesmo sou super fanático por esportes. Acompanhar a Champions League com os tokens tem sido uma delícia. Uma telinha nos jogos e outra com a cotações”, conta Milanello.

Além do Brasil (e do futebol)

Os clubes ainda estão tateando as possibilidades permitidas pelos fan tokens, mas já entenderam que eles não devem se misturar com o programa de sócio-torcedor, que traz renda recorrente e é mais focado em experiências presenciais, sejam descontos para compra de ingressos ou parcerias com estabelecimentos conveniados, como farmácias e restaurantes.

Outro potencial que começa a ser explorado é o de internacionalização da marca. Em sintonia com a falta de barreiras característica do setor de criptomoedas, as negociações de fan tokens de times brasileiros são muitas vezes feitas por estrangeiros – ou pelo menos por quem não mora no país.

Na oferta do token do Corinthians na Socios.com, apenas 33% dos compradores foram brasileiros, ao passo que só 13% das primeiras unidades do $GALO foram adquiridas por residentes no Brasil.

Isso ocorre porque qualquer pessoa pode negociar na Socios.com, desde que transfira tokens Chiliz (CHZ) para a conta e efetue a conversão pelo fan token desejado. Por não aceitar reais, o processo costuma ser mais aderido por estrangeiros, que acabam tendo ali muitas vezes o primeiro contato com o clube.

O formato vem sendo experimentado para diversas modalidades esportivas com sucesso, do UFC à Fórmula 1, e será expandido em breve para outras indústrias. Na sexta-feira (8), a Chiliz anunciou investimento de US$ 60 milhões em uma nova iniciativa para tokenizar mídia, entretenimento (TV, música) e varejo, além de marcas em geral.

Em paralelo, outros setores se movimentam para acompanhar a tendência. É o caso do setor de e-sports, que vê nos fan tokens uma oportunidade óbvia de engajar uma legião de usuários nativos do ambiente online.

“O público do futebol é mais velho, e o que consome e-sports é mais jovem, com maior facilidade de aderir ao virtual. Vai ser muito mais fácil explicar [o que são fan tokens] para um menino de 15 anos que já está mais antenado em cripto. Ele vai se familiarizar muito mais rápido”, explica o streamer Tom Toledo, da Xisde, primeira equipe de e-sports do Brasil e uma das primeiras do mundo a lançar um fan token próprio.

O time também observa que seu público é “tão grande quanto o do futebol”, mas é 100% digital, e revela que vai se aventurar no mundo dos jogos NFT, como o Axie Infinity (AXS). “Queremos ser pioneiros nisso”, conta Toledo, que conheceu as criptomoedas enquanto acompanhava seu amigo na tentativa de minerar usando o computador da escola.

O que esperar

Os fan tokens parecem trazer um respiro bem-vindo para as contas dos clubes ao mesmo tempo em que ajudam a manter próximo o torcedor que está fisicamente mais longe do que nunca dos estádios.

Por outro lado, o economista Cesar Grafietti alerta o torcedor mais empolgado e critica a suposta inovação trazida pelos criptoativos no futebol. Em coluna no InfoMoney, o especialista em finanças do esporte lembra que o aspecto especulativo dos fan tokens traz traders profissionais para um ambiente recheado de amadores, o que desequilibraria a equação, inflaria preços e afetaria a proposta de engajamento, já que não-torcedores podem ter mais peso em enquetes que afetam o dia a dia do clube.

“Investidores experientes costumam operar o mercado melhor que torcedores querendo participar de enquetes sobre a marca de desodorante do camisa 9 do seu time”, afirmou.

Mas as possibilidades dos criptoativos nos esportes não se limitam aos fan tokens e às artes em NFT. Os clubes sabem disso e já vislumbram a possibilidade de automatização de processos que vão da venda de ingressos à comercialização de antecipação de faturamentos que podem ser pulverizados no mercado para expandir receitas.

Um modelo de tokenização que vem dando certo é o do Mecanismo de Solidariedade da FIFA, já adotado por Vasco e Cruzeiro. Nele, o clube emite criptoativos que dão direito ao comprador de receber a bonificação recebida proveniente da negociação de um atleta formado na categoria de base.

A expectativa é que iniciativas com essa sejam expandidas para outras frentes, permitindo que pessoas comuns comprem tokens de recebíveis de cota de TV ou de patrocínio, ajudando a aliviar dívidas de curto prazo das equipes.

Até lá, o gerente de inovação do Atlético diz que o caminho deverá passar por ajudar o torcedor a entender tantas mudanças. “A gente tem um desafio muito grande de educação das pessoas. A grande maioria não tem conhecimento sobre universo cripto”.

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