SÃO PAULO – Nos últimos meses, os financiamentos de veículos por pessoas físicas atingiram prazos que não eram vistos desde 2011. Quem financiou um carro em fevereiro negociou o pagamento em 45,9 prestações, em média, segundo dados contabilizados pelo Banco Central. Em dezembro do ano passado e em janeiro deste ano, o parcelamento chegou a ultrapassar 46 vezes.

A extensão dos financiamentos era uma tendência recente, evidenciada do início da pandemia para cá. “Prazos mais longos têm impacto no valor da parcela mensal paga pelo consumidor e são um ótimo atrativo para vendas”, explica Marcus De Bellis, sócio da AM2, consultoria especializada em varejo automotivo.

“A maior parte dos consumidores, especialmente da base da pirâmide, entende que fazer o valor da parcela caber no orçamento é o mais importante na decisão de compra de um veículo, seja ele novo ou usado”, explica.

os carros seminovos tiveram um aumento de 1% nos preços em fevereiro e de 1,87% em janeiro, segundo estudo da consultoria automotiva Kelley Blue Book (KBB). Nos mesmos meses, os carros zero km tiveram alta de 0,84% e 0,66%.

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“O valor médio dos financiamentos aumentou, e há duas explicações para isso: ou o preço dos carros está maior, ou o valor da entrada está menor”, diz Paulo Noman, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (ANEF).

Ele ressalta que bancos e montadoras têm procurado desenvolver alternativas que facilitem a aquisição – como a chamada “parcela balão”, valor maior pago de uma vez ao fim do contrato –, de modo a reduzir o desembolso inicial e as prestações.

Com o patamar de juros atuais, de 1,53% ao ano, um financiamento de automóvel no valor de R$ 50 mil se traduz em parcelas de R$ 1.816,67 se feito em 36 vezes. Em 48 meses, o custo mensal cai para R$ 1.478,18 e chega a R$ 1.279,49 em 60 prestações. As estimativas são da Calculadora do Cidadão, disponibilizada pelo Banco Central.

Taxas de juros voltaram a subir

Para quem quer comprar um carro novo, as parcelas menores graças ao financiamento mais longo podem soar tentadoras. Mas há outros aspectos que precisam ser considerados nessa conta. Os juros são um deles.

Com a queda da taxa básica da economia (Selic) ao longo dos anos e o interesse em recuperar as vendas bagunçadas pelos efeitos da pandemia, o custo do crédito para aquisição de veículos também diminuiu. Em setembro do ano passado, os juros chegaram ao menor nível da série histórica do Banco Central, que tem mais de 20 anos: 1,43% ao mês.

Desde lá, em paralelo ao alongamento das operações, as taxas voltaram a subir, chegando a 1,55%, em janeiro, e a 1,53%, em fevereiro.

Isso aconteceu antes mesmo de a Selic sofrer a sua primeira elevação em quase seis anos, de 2% ao ano para 2,75%, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em março.

Para os bancos, financiamentos mais longos embutem riscos adicionais – e o principal é o custo de captação. Para poderem emprestar dinheiro, as instituições financeiras têm de tomá-lo em algum lugar pagando, elas mesmas, juros. Quanto maior o prazo, maiores as incertezas quanto às taxas que serão praticadas no mercado no futuro.

Para se proteger, os bancos repassam o custo dessa incerteza também para o consumidor. “Por isso, quem cotar financiamentos de veículos em 24 ou em 48 meses vai encontrar taxas diferentes – e mais altas nas operações mais longas”, explica Noman, da Anef.

Dada a tendência de que a Selic siga subindo – economistas estimam que a taxa alcance 5% ao ano no fim de 2021 –, é possível que os juros dos financiamentos de veículos também avancem mais. Não há, no entanto, clareza sobre esse cenário.

“Se as montadoras quiserem escoar a produção, por exemplo, é possível até que subsidiem as taxas e os consumidores encontrem promoções”, diz Noman. Mas se a demanda seguir elevada para os níveis da oferta, o mais provável é que a trajetória dos juros básicos seja acompanhada.

Pontos de atenção ao contratar um financiamento

Se facilita a acomodação das parcelas no bolso, a extensão dos financiamentos de automóveis causa outros efeitos – e não desejados. Um deles é o desembolso maior para o pagamento de juros.

O custo dos juros em um financiamento de R$ 50 mil em 36 vezes, com juros de 1,53%, totaliza R$ 15.400,12. Se a mesma operação for fechada em 60 vezes, o gasto do comprador apenas com juros seria 74% maior, somando R$ 26.769,40.

O outro efeito é o comprometimento da renda. “Quanto mais tempo alguém passa pagando prestações elevadas, como costuma ser o caso dos financiamentos de veículos, menos margem de manobra tem diante de imprevistos”, diz Danilo Yussuyuki, planejador financeiro certificado (CFP).

Em épocas de instabilidade econômica, isso se torna mais perigoso. Com a intensificação do contágio pelo coronavírus e a necessidade de fazer lockdown em diversas regiões do país, há dúvidas quanto aos rumos do mercado de trabalho até o fim de 2021. As perspectivas são de que os acordos de redução salarial e a suspensão de contratos de trabalho sejam retomados, diante das projeções cada vez mais desanimadoras para o crescimento da economia, estacionadas em 3,18% neste ano.

No financiamento de automóveis, o risco de perder o bem é real. “Se não conseguir honrar o compromisso, o consumidor pode acabar perdendo tudo o que pagou e ainda ter o veículo tomado pelo agente financeiro. Por isso, contratos de longa duração precisam ser muito bem avaliados”, diz De Bellis, da AM2.

Yussuyuki recomenda um exercício coletivo antes de tomar a decisão de comprar um carro e entrar em um financiamento. “O primeiro passo é entender as prioridades da família e que necessidade o veículo vai suprir”.

Depois, é hora de pesquisa e simular. “Verifique se a instituição financeira embute tarifas adicionais ao financiamento, como seguros. Ao comparar as opções, atenha-se ao custo efetivo total, pois o valor das parcelas pode esconder custos”, sugere.

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