(Foto: Getty Images)

SÃO PAULO – Se ter paciência está entre as maiores virtudes do investidor, o desempenho do mercado financeiro brasileiro, decepcionante neste início de ano, poderá recompensar aqueles que seguirem serenos, atentos ao futuro.

Esse parece ser o caso da gestora britânica Ashmore, que tem cerca de US$ 93 bilhões (aproximadamente R$ 530 bilhões) sob gestão e é referência global em mercados emergentes.

Enquanto instituições como BlackRock, JP Morgan e Credit Suisse têm promovido uma migração recente das apostas em emergentes, reduzindo as alocações em Brasil para aumentar a exposição em ativos de países como México e Chile, a Ashmore segue confiante no país.

O que impede investidores estrangeiros de aumentarem a exposição ao mercado brasileiro

A Ashmore analisa no momento oportunidades em ações de setores como bancos, que podem se beneficiar de uma retomada econômica, além de consumo, em uma virada para papéis com teses mais cíclicas.

Hoje o Brasil responde por cerca de 4% da carteira de ações nos fundos da gestora. Já no que diz respeito à dívida em dólar, a Ashmore tem posição “underweight” (abaixo da média, equivalente à venda) em títulos soberanos brasileiros, por considerar o prêmio de risco baixo. A dívida corporativa de empresas brasileiras atrai mais a gestora no momento.

Desde setembro, quando concedeu a última entrevista ao InfoMoney, Medeiros conta que a gestora já aumentou, depois diminuiu, e agora está novamente buscando expandir a alocação em Brasil. “O balanço de risco está muito mais interessante hoje, principalmente se você pensar no médio prazo”, comentou.

Desde então, o principal acontecimento para os mercados foi a eleição de Joe Biden à presidência americana e as novas rodadas de estímulo econômico, que preocupam Medeiros tanto pelo lado da pressão inflacionária quanto pela indução “artificial” da atividade global.

Voo de galinha

A economia americana está sendo retomada, mas a Ashmore não vê o movimento como uma tendência estrutural. “É mais como um voo de galinha, não se fez nada para aumentar a produtividade da economia”, comentou. “Os cheques de estímulo adicionais do Biden não eram uma condição necessária para a recuperação econômica.”

Se essas políticas se mantiverem, Medeiros vê uma mudança de patamar nas expectativas de inflação a longo prazo. “O risco de gerar uma economia desbalanceada aumentou bastante. E no segundo semestre vamos ver as taxas de inflação de todos os lugares subindo.”

Ele espera, contudo, que boa parte do aumento dos preços seja temporário, ainda que aponte a situação americana como uma das mais delicadas, por considerar que o Federal Reserve, o banco central do país, não teria condições – ou vontade – de reagir de forma rápida.

O efeito dessa questão já tem sido sentido por meio do aumento das taxas dos Treasuries, os títulos públicos americanos, com impacto sobre o dólar e, consequentemente, sobre os mercados emergentes.

Apesar do risco, a avaliação de Medeiros é que a reabertura gradual das economias vai permitir um crescimento menos intenso, porém mais sustentável da atividade global, principalmente a partir do terceiro trimestre.

A Ashmore espera que a tendência de depreciação do dólar ganhe fôlego, com poucos drivers adicionando capital à economia americana, mesmo com um aumento de juros. No médio prazo, Medeiros prevê uma maior diversificação de capital dos Estados Unidos, com potencial positivo sobre a economia brasileira.

“O real, a taxa de juros de cinco anos e as ações estão atrativos do ponto de vista fundamental, a não ser que aconteça o pior cenário”, observou.

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