Ao contrário de muitos outros ativos financeiros, o valor do ouro não pode ser estimado através de métodos comuns como o fluxo de caixa descontado. Afinal, ele não paga dividendos ou juros ao longo do tempo.

A discussão sobre se vale a pena ou não investir em ouro é longa, mas, para Bruno Cordeiro, da Kapitalo, a história pode servir de bússola para saber se a demanda pelo metal irá aumentar ou diminuir nos próximos anos.

E, olhando para um futuro não tão distante, Cordeiro enxerga um possível cenário de repressão financeira em que os agentes serão induzidos a comprar ouro como proteção do portfólio.

Histórico do ouro

“Já fizemos vários estudos históricos sobre como o ouro performou depois que essa instituição chamada fiat currency [moeda fiduciária, sem lastro em nenhum metal] se iniciou”, contou Bruno no último episódio do Stock Pickers. “Isso começou em 1971. De lá para cá o compromisso do dólar com o lastro em ouro acabou e o ouro virou uma commodity como outra qualquer. Mas hoje o ouro está muito relacionado com um tipo de reserva de valor”, conclui.

Na década de 1970, período de repressão financeira nos EUA [fenômeno no qual governos limitam artificialmente ganhos de quem empresta dinheiro], quando o Banco Central estava rodando ‘atrás da curva’, o ouro disparou. Foi um período em que ficou muito claro que ter ativo real e sair da moeda (dólar) foi um ótimo negócio.”

No começo de 1982, Paul Volcker (ex-presidente do FED), segundo Cordeiro, matou esse processo e reconquistou credibilidade para o FED. De lá até 2002 o ouro entrou num mercado de baixa. “Ele performava pior do que quase todos os ativos de risco”, comentou Cordeiro.

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Durante o ciclo de alta das commodities, de 2003 até 2008, momento em que os mercados emergentes geraram muita riqueza, houve muita acumulação de reservas e compra de ouro também.

Para Cordeiro, muita gente confundiu isso com o fato de os juros estarem baixos. “Eu não acho que foi essa a grande motivação. A grande motivação de fato foi a acumulação de reservas e riqueza por vários países emergentes”, disse. “Obviamente isso levou a vários Bancos Centrais de países emergentes a comprar ouro. Pessoa física também comprou ouro. Você vai ficando rico e começa a consumir coisas mais caras (ouro inclusive).

Ouro como proteção

Atualmente, o fundo gerido por Cordeiro, o K10, da Kapitalo, está posicionado em ouro e para eles a motivação: a deterioração das finanças públicas de vários países desenvolvidos.

“Na minha cabeça, esse processo está só começando: a gente vai ver défcits fiscais enormes nos EUA daqui para frente. Na minha opinião, o déficit fiscal basal americano é mais alto do que o mercado acha e, se der uma gestão democrata, isso será exacerbado. A relação dívida/PIB vai crescer muito e esse é o típico cenário em que investidores pensam na necessidade de ter uma proteção.”

Bond versus ouro

No cenário descrito, muitos poderiam pensar em títulos públicos como proteção, mas, para Cordeiro, eles não servirão, pois o resultado desse desajuste fiscal pode ser mais inflação.

Então, o que pode servir como proteção é algum tipo de ativo real. “Como o ouro é um negócio muito pequeno, comparado aos outros ativos financeiros, se por acaso ele for escolhido como proteção, ele tem uma convexidade, uma elasticidade muito grande, pode subir muito de preço”, diz o gestor.

Mas ele alerta: “Esse troço pode cair rápido ou subir rápido. Não recomendo pessoa física se aventurar de olho fechado. Eu já faço trading de metais há 14 anos então eu me sinto confortável”.

E, olhando para o passado, Bruno acha que a gente pode estar num período meio parecido com o que ocorreu logo depois da década de 70.



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