Mão segura um celular e consulta um gráfico em frente a um painel de movimentação de ações em Bolsa - mercado fracionário
(scyther5/Getty Images)

SÃO PAULO — O número de investidores pessoas físicas na B3 disparou nos últimos dois anos. Em 2018, eram 813,3 mil CPFs cadastrados na Bolsa brasileira, número que saltou para 1,681 milhão no ano passado.

Já em 2020, mesmo com a crise do coronavírus, houve um aumento de 1 milhão até junho, totalizando 2,649 milhões de pessoas físicas registradas. Desse total, quase a metade (48,9%) estão no estado de São Paulo, que é seguido por Rio de Janeiro (15,4%) e Minas Gerais (10,1%).

A maioria dos investidores pessoas físicas na B3 está concentrada nas capitais dos estados Brasileiros — uma fatia de 72,8%. Mas esse percentual vem caindo: em junho de 2019 era de 74,4% e, em junho de 2018, de 76,3%.

Enquanto isso, os investidores pessoas físicas que moram no interior ganham espaço no mercado. Do total de CPFs cadastrados na B3, 27,2% eram de pessoas fora dos grandes centros — em junho de 2019 era de 25,6% e, em junho de 2018, de 23,8%.

Os números foram divulgados pela B3, que informou ainda as 20 localidades com a maior participação no saldo investido por pessoas físicas em ações. A lista tem nove cidades que não são capitais (veja abaixo).

Cidades com maior market share do saldo investido em ações - B3

Para Tarcísio Morelli, diretor de inteligência de mercado da B3, um dos fatores que tem motivado as pessoas físicas a irem para a Bolsa é a conjuntura macroeconômica.

“Com a taxa de juros em seu menor nível histórico, as pessoas têm que diversificar seus investimentos. Além disso, tem todo um ecossistema que foi desenvolvido nos últimos anos para suportar a pessoa física no mercado”, disse.

“Tem um conjunto de corretoras com foco em pessoas físicas, casas de research voltadas para esse público e também os influencers, que se comunicam com esses investidores”, completou.

O executivo acredita que o maior acesso à informação derruba os limites geográficos, o que colabora para o aumento dos investidores no interior. Além disso, ele acredita que a nova realidade global, com mais empresas aderindo de forma permanente o teletrabalho, pode colaborar para que os investidores se espalhem ainda mais.

“Informação mais acessível nos parece ser bastante importante. O investidor sabe que precisa diversificar, mas se ele não souber o que fazer nem como fazer, não vai chegar a lugar algum. Hoje, ele tem ferramentas para isso”, afirmou.

“Tem empresas que, quando a gente olha para os acionistas, elas tinham uma base de pessoas físicas em 45% dos municípios brasileiros. Hoje, essa base já está em 75% dos municípios. É surpreendente, as próprias companhias não imaginavam que teriam tamanha capilaridade”, concluiu.

Para ajudar bancos e corretoras a atraírem esse público de “novatos na Bolsa”, a B3 lançou recentemente a ferramenta Datawise Insights — da qual foram extraídos os dados mencionados acima. É uma plataforma que correlaciona as bases de dados dos produtos listados na B3 com outras bases de dados públicas, como IBGE e Ministério da Economia.

A ideia é que, com os resultados, os bancos, corretoras e agentes autônomos poderão conhecer melhor a distribuição dos produtos financeiros por região, idade e outros filtros, identificar localidades onde pode haver maior potencial para captação de clientes e aprimorar suas estratégias de atração, retenção e sofisticação do portfólio de investidores da sua base.

“A B3 tem grande interesse em ver o investidor pessoa física atuando no mercado de ações. Quanto mais diversificado o mercado for, melhor. É bom ter diferentes públicos agindo, sejam pessoas físicas, institucionais etc. Com isso, você melhora a formação de preço e há redução de spread, por exemplo”, disse Morelli.

O diretor da B3 destacou que, além do aumento por si só dos investidores pessoas físicas na Bolsa, também é preciso observar que esse público está mais qualificado.

“Em março, a gente viu uma volatilidade forte no mercado, o que foi um teste para essas pessoas físicas, investidores recentes. Elas mantiveram suas posições, não venderam. Foram muito poucas as que zeraram posições, e do outro lado teve muita gente entrando, gente nova”, disse.

“Foram 220 mil novos investidores pessoas físicas entrando na B3 só em março. O que a gente vê é que a pessoa física não só está interessada no mercado, mas também é um público resiliente, as pessoas estão cientes do risco, o que é uma notícia bastante positiva.”

Democratização do mercado

Para Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da AF Invest, dois fatores justificam o aumento de pessoas físicas na Bolsa, inclusive no interior do país. “É a própria digitalização e democratização dos investimentos que a gente tem vivido no país nos últimos anos. A pessoa pode estar em qualquer lugar e acessar qualquer gestor via plataformas, além de assinar relatórios de casas de research de qualquer lugar.”

Renato Ometto, gestor da Mauá Capital, acrescenta que zerar o custo de manutenção de conta por bancos e corretoras aumenta a atratividade para investidores com menor ticket médio. “A mudança de tarifação vai ser importante para aumentar o número de investidores pessoas físicas.”

“No Brasil, há mais de 100 milhões de CPFs com recursos na poupança, porém apenas 20 milhões com poupança acima de R$ 5 mil. Consolidando mercado de balcão e Tesouro Direto, há 7,5 milhões de pessoas em todos os produtos de captação bancária. Pela Anbima, há 5 milhões de cotistas (pode haver sobreposição de CPFs). Com esses dados, pode-se ter uma ideia de potencial de investidores”, disse.

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